Por Helena Geraldes (in Público)
Deco diz que mercado voluntário de carbono dá fracas garantias. Ministério do Ambiente equaciona regulamentação
Por mais amigos do ambiente que tentemos ser, chega uma altura em que não conseguimos reduzir mais as nossas emissões de carbono. A compensação já é possível há quatro anos com empresas que vendem créditos de emissão. Mas um estudo da Deco, divulgado este mês, revelou que o novo mercado voluntário de carbono ainda "dá fracas garantias".
A Deco simulou o dia-a-dia de uma família de quatro elementos que, ao final de um ano, emitiu seis mil quilos de dióxido de carbono equivalente (COe), associados à habitação e ao uso do automóvel.
No mercado voluntário de carbono, a Deco avaliou a oferta das empresas CarbonoZero, criada no final de 2005, e da Off7, a operar desde o início deste ano. Estas compensam as emissões dos clientes investindo em energias renováveis, eficiência energética ou na plantação de árvores, ou seja, actividades que absorvem ou evitam as emissões.
Mas a Deco alerta que "não há garantias reais de que o dinheiro chegará ao seu destino ou será bem investido". "Como não há um organismo que regule e supervisione estas actividades, dificilmente pode saber quanto do dinheiro financiará os projectos de energia limpa apoiados por estas empresas", escreve a Deco. Além disso, "é quase impossível determinar o preço justo por tonelada emitida".
Contactado pelo PÚBLICO, o Ministério do Ambiente comentou que a necessidade de regulamentação "já foi equacionada enquanto algo que deve ser feito" e que "será benéfico".
Por enquanto, e porque já existem cidadãos interessados em ficar com a consciência tranquila depois de uma viagem de avião, há algumas empresas que oferecem os seus serviços em Portugal.
Desde o seu lançamento, a CarbonoZero já compensou as emissões de 62 clientes individuais, correspondendo a 170 toneladas de carbono, segundo dados enviados ao PÚBLICO. Estas emissões representam 0,08 por cento do total de emissões compensadas pela empresa, através do investimento em cinco projectos florestais em Portugal, um projecto agro-florestal em Moçambique e um tecnológico no Brasil.
A Off7 ainda não tem dados disponíveis mas Romeu Gaspar, um dos fundadores, disse ao PÚBLICO que os seus clientes individuais representam dez por cento do negócio. A Off7 trabalha com três projectos de energia renovável e eficiência energética, incluídos no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (previsto no Protocolo de Quioto), na Rússia, Índia e China.
Romeu Gaspar referiu que só compram créditos de emissão de "muita qualidade", que quantificam as emissões da forma mais rigorosa possível e que garantem uma auditoria externa no final do ano.
A CarbonoZero conta que "foi a primeira a ser sujeita a verificação externa independente", com resultados publicados anualmente.
Para aumentar a fiabilidade neste mercado voluntário de compensação de emissões, a empresa defende a "actuação rigorosa e transparente" de todos os agentes, um controlo externo da actividade e um maior nível de exigência dos clientes.
Francisco Ferreira, da Quercus, considera que este mercado traz um "contributo importante" e desejável e mostra a "preocupação das empresas e dos cidadãos".
No entanto, a Quercus prefere apostar nas medidas de redução de emissões em detrimento da compensação. "Só devemos compensar aquilo que não conseguimos reduzir", disse ao PÚBLICO. "Tem de haver uma educação do consumidor e da empresa sobre o que estão efectivamente a comprar, onde se encaixa esta compensação nos seus comportamentos."
terça-feira, 20 de outubro de 2009
sábado, 28 de março de 2009
O Mercado Voluntário de Carbono
Em Dezembro de 2004, o HSBC, um dos maiores bancos mundiais, surpreendeu os seus stakeholders ao anunciar que tinha decidido tornar as suas operações neutras de carbono (Press Release HSBC, 2004).
A surpresa deveu-se não tanto ao facto do Banco ter assumido formalmente levar a sério a questão das alterações climáticas mas sim que iria despender – de forma totalmente voluntária - milhões de dólares durante os próximos 10 anos para minimizar o impacto da organização relativamente ao problema.
Para implementar a iniciativa, o HSBC anunciou ao mercado um open tender para investir em projectos de energias renováveis e, desta forma, neutralizar as suas emissões, superiores a 500 mil toneladas de CO2/ ano. Mais de 100 projectos de redução de emissões responderam ao desafio e cerca de 15 foram seleccionadas com base na dimensão, tecnologia, localização e benefícios sociais associados.
No final do primeiro trimestre neutro de carbono o banco tinha gerado créditos de carbono no valor de $1 milhão na Alemanha, Índia, Austrália e Nova Zelândia, mas a iniciativa revelou-se bastante complexa e de difícil aprendizagem. Francis Sullivan (Environment Adviser, HSBC) concluiu: ”We need a better way of finding what we want in the market”.
A iniciativa do HSBC e a afirmação de Sullivan revelam ainda hoje as oportunidades e os desafios do Mercado Voluntário de Carbono ou Mercado de offset. As empresas que compram ou vendem créditos de carbono operam num mercado fragmentado, com uma complexa cadeia de valor e onde os mecanismos de compliance estão longe de ser aceites por todos os participantes.
No entanto, existem hoje sinais de que o mercado começa a evoluir para uma fase mais madura por via de i) aceitação generalizada de mecanismos autoregulatórios, críticos em qualquer mercado (ex. Gold Standards) e ii) identificação de modelos de negócio capazes de responder com sucesso à procura de mercado.
Desta forma, é possível inferir algumas conclusões acerca do mercado voluntário de emissões, nomeadamente as fases da cadeia de valor que suportam uma oferta de sucesso (ver figura I):

O mercado voluntário de emissões continuará a ser marginal em termos de actividade económica durante os próximos anos. Felizmente, o aparecimento de entidades certificadoras, de standards de valorimetria aceites de forma mais ou menos generalizada e de um maior número de intermediários irão permitir consolidar a informação de mercado, tornando mais fácil e transparente o processo de compra das entidades que desejam anular as suas emissões.
TF
A surpresa deveu-se não tanto ao facto do Banco ter assumido formalmente levar a sério a questão das alterações climáticas mas sim que iria despender – de forma totalmente voluntária - milhões de dólares durante os próximos 10 anos para minimizar o impacto da organização relativamente ao problema.
Para implementar a iniciativa, o HSBC anunciou ao mercado um open tender para investir em projectos de energias renováveis e, desta forma, neutralizar as suas emissões, superiores a 500 mil toneladas de CO2/ ano. Mais de 100 projectos de redução de emissões responderam ao desafio e cerca de 15 foram seleccionadas com base na dimensão, tecnologia, localização e benefícios sociais associados.
No final do primeiro trimestre neutro de carbono o banco tinha gerado créditos de carbono no valor de $1 milhão na Alemanha, Índia, Austrália e Nova Zelândia, mas a iniciativa revelou-se bastante complexa e de difícil aprendizagem. Francis Sullivan (Environment Adviser, HSBC) concluiu: ”We need a better way of finding what we want in the market”.
A iniciativa do HSBC e a afirmação de Sullivan revelam ainda hoje as oportunidades e os desafios do Mercado Voluntário de Carbono ou Mercado de offset. As empresas que compram ou vendem créditos de carbono operam num mercado fragmentado, com uma complexa cadeia de valor e onde os mecanismos de compliance estão longe de ser aceites por todos os participantes.
No entanto, existem hoje sinais de que o mercado começa a evoluir para uma fase mais madura por via de i) aceitação generalizada de mecanismos autoregulatórios, críticos em qualquer mercado (ex. Gold Standards) e ii) identificação de modelos de negócio capazes de responder com sucesso à procura de mercado.
Desta forma, é possível inferir algumas conclusões acerca do mercado voluntário de emissões, nomeadamente as fases da cadeia de valor que suportam uma oferta de sucesso (ver figura I):

O mercado voluntário de emissões continuará a ser marginal em termos de actividade económica durante os próximos anos. Felizmente, o aparecimento de entidades certificadoras, de standards de valorimetria aceites de forma mais ou menos generalizada e de um maior número de intermediários irão permitir consolidar a informação de mercado, tornando mais fácil e transparente o processo de compra das entidades que desejam anular as suas emissões.
TF
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